"Nenhuma Ideia Vale Uma Vida" por Anita Efraim e Isabela Pacilio | Sem fins lucrativos

memórias de sobreviventes do Holocausto

De 1939 a 1945 mais de 6 milhões de judeus foram mortos pelas mãos dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Fornos crematórios, câmaras de gás, fuzilamentos em grupo, fome e frio eram usados para desumanizar e acabar com a vida dos prisioneiros nos campos de concentração espalhados pela Europa. Muitos sobreviveram, mas carregam lembranças

e marcas até hoje. Essas são as suas histórias.

Nanette

Blitz Konig

Viveu por dois anos em Bergen-Belsen,

na Alemanha.

A holandesa perdeu

a família e chegou

a pesar 31 kg. Nanette foi colega de sala de Anne Frank.

Thomas Venetianer

O eslovaco e sua família foram presos pela Gestapo

e enviados para

o campo de Terezin.

Viveu parte de sua infância dentro da fortaleza nazista.

Ruth Tarasantchi

Nascida na Iugoslávia, Ruth foi mandada com a família

para Ferramonti,

na Itália, o primeiro campo a ser libertado na guerra, em 1943.

Josef Freihof

Em memória de Josef, falecido em 15 de outubro de 2016.
Salvo por 
Schindler,

Freihof trabalhou em sua fábrica e teve a vida poupada.

Julio Gartner

Ainda adolescente, Gartner perdeu os pais e passou por cinco campos de concentração até ser libertado. Julio morreu em novembro de 2018.

 

Nanette Blitz Konig

Sobrevivente do campo de Bergen-Belsen, na Alemanha, Nanette chegou a pesar 31 kg. Ela vivia na Holanda com os pais e o irmão quando os nazistas invadiram seu país. Até hoje ela sente dificuldades para comer. Ouça a história completa aqui.

Foto: Medialand/Reprodução

 

Thomas Venetianer

Ele era apenas uma criança quando foi ao campo de concentração de Terezin, localizado na extinta Tchecoslováquia. Thomas relata o esforço dos nazistas para encobrir as atrocidades em Terezin, o campo usado como fachada para a Cruz Vermelha. Ouça abaixo.

Foto: FISESP

 

Ruth Tarasantchi

Ruth e sua família foram enviadas para o campo de Ferramonti, na Itália, durante a Segunda Guerra. Ainda criança, ela testemunhou fuzilamentos aéreos e nunca mais esqueceu as atrocidades do Holocausto. Ouça a história completa aqui.

Foto: Anita Efraim/Isabela Pacilio

MAJDANEK

Construído em 1969, o Mausoléu do campo de concentração de Majdanek, na Polônia, é um símbolo em homenagem às vítimas do Holocausto.

 

As cinzas das vítimas cremadas nos fornos do campo foram colocados sob o domo do mausoléu. Os restos mortais foram recolhidos após a liberação do campo em 1944.

Estima-se que entre 74 mil a 90 mil judeus foram deportados para o campo principal de Majdanek.

 

Josef Freihof

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Salvo por Oskar Schindler, Josef trabalhou como marceneiro no campo de Crashnick, na Polônia. Para não passar fome, ele se fingia de aleijado para passar duas vezes na fila da comida. Ouça mais aqui.

Foto: Anita Efraim/Isabela Pacilio

Ainda jovem, Julio passou por cinco campos de concentração antes de vir ao Brasil. Na companhia do irmão, presenciou as atrocidades dos nazistas. Julio morreu em novembro de 2018.

Ouça sua história aqui.

Julio Gartner

 
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Foto: Anita Efraim/Isabela Pacilio

 

É comum pensar que, antes da ascensão de Hitler ao poder, o antissemitismo na Europa não existia. No entanto, a perseguição aos judeus é bastante antiga. No século XIX, as bases do nazismo já eram formadas não só na Alemanha, mas em todo continente.

Contexto histórico

O antissemitismo europeu já existia na Idade Média. Os judeus foram usados como "bode expiatório" e culpados pela mais grave doença da época: a peste negra. Nesse período, a figura dos seguidores do judaísmo era de pessoas com rabos e chifres e que matavam crianças cristãs para utilizar seu sangue. De acordo com Eduardo Szklarz em seu livro "Nazismo, Como ele pode acontecer",  "a propaganda nazista absorveu esses elementos: cartazes do 3º Reich comparavam o judeu a um polvo gigante que espalhava seus tentáculos sobre arianas inocentes".

 

O pensamento antissemita de Hitler começou a aflorar, junto com a ideia de que os judeus queriam “conquistar a Terra”. "Certo é que em Viena ele começou a construir a teoria da conspiração nazista: judeus dominavam a imprensa, a vida cultural, os prostíbulos, a social-democracia. E deveriam ser eliminados. Essas ideias não eram dele, claro. Circulavam nos livros, panfletos racistas, óperas, nos discursos políticos e jornais que ele lia (...)” (SZKLARZ, 2014, p. 52).

Hitler afirmava que os judeus são apenas solidários se ameaçados, movidos por egoísmo individual: “No povo judeu, a vontade de sacrificar-se não vai além do puro instinto de conservação do indivíduo”. A falta de espírito de sacrifício e coragem resultaria na extinção dos judeus, se estes vivessem sozinhos no mundo. Para o nazista, o “Estado Judaico, que deve ser o organismo vivo para a conservação e multiplicação da raça – não possui nenhum limite territorial”, além de não apresentar características que “distinguem as raças privilegiadas” na criação e cultura. Por isso, Szklarz justifica a perseguição aos judeus por serem um povo "internacional", isto é, sem um país, um lar nacional.  
 

Uma das regras impostas aos alemães era de que deveriam provar que em sua família não havia judeus. De acordo com a lei nazista, o próprio Hitler não cumpria o critério de “proteção do sangue”. Ele não conhecia seu avô paterno – e, portanto, não poderia provar se tinha raízes judaicas ou não. O movimento nazista carregava em suas bases o desprezo por quaisquer outras “raças” ou ideologias que não fossem as do Terceiro Reich, isto é, as que colocassem os alemães arianos como superiores.

Sendo assim, apesar de, quando eleito, o chanceler da Alemanha continuamente se referir à paz como objetivo, a realidade era que todo o processo era apenas uma preparação para a guerra que começaria seis anos depois de sua ascensão ao poder. Pode-se definir, então, o projeto nazista como uma política totalitária e a sua proposta de sociedade organizada em torno de um corpo único, no qual não há espaço para qualquer tipo de divergência ou diferença.

SEGUNDA

GUERRA

MUNDIAL

Depois de seis anos no poder, Hitler fez sua primeira investida para a criação de seu Reich e para iniciar a guerra: no dia 1˚ de setembro de 1939, o exercito alemão invadiu a Polônia.

Dois dias depois, os antigos inimigos da Alemanha, Grã-Bretanha e França, declararam guerra ao país, mas tiveram ações pouco incisivas, como a distribuição de panfletos em solo alemão, feita por aviões. Apesar da resistência polonesa, o exército nazista conseguir fazer com que o país se rendesse em menos de um mês. No dia 27 de setembro, Varsóvia, a capital polonesa, se rendeu e passou a ser a primeira conquista do Terceiro Reich. Quando o país foi invadido, poloneses e judeus foram os principais alvos de Hitler. A proposta de higienização do império alemão incluíam a morte de todos que não pertencessem à raça ariana, mas os judeus eram um alvo em especial.

"Antes do início da guerra, a Áustria já havia sido anexada ao território alemão e, consequentemente, a perseguição aos judeus austríacos começara e as leis antissemitas foram instauradas no país. Os judeus correspondiam a um decimo da população austríaca e era, no total, 170 mil. A Áustria era a parte do Reich onde mais haviam seguidores da religião judaica e, na opinião de Richard Bessel, a capital, Viena, foi "um modelo do futuro" para o destino dos judeus na ditadura nazista.

Os judeus foram atacados nas ruas, humilhados e forçados a realizar trabalhos braçais diante de arianos zombeteiros. Propriedades judias foram pilhadas; lares judeus foram revistados e frequentemente saqueados, e os judeus foram aprisionados num frenesi de violência que levou muitos ao suicídio e muitos outros a buscar em desespero maneiras de sair do país" (BESSEL, 2014, p.82).

 

Depois da Noite dos Cristais, a perseguição aos judeus ficou ainda pior e mais violenta. A Tchecoslováquia também foi invadida antes do estopim do conflito mundial, em 16 de março, e os seguidores do judaísmo começaram a sofrer assim como todos os outros que viviam nos territórios anexados por Hitler.

 

Além de perseguidos, os judeus eram humilhados durante do regime de Hitler. No dia 15 de novembro de 1939, a principal sinagoga de Varsóvia foi incendiada e, em Lublin, os livros de estudos talmúdicos foram queimados na Polônia, e já não era a primeira vez que Hitler tomava essa providência. Em 23 de novembro, os poloneses de descendência judaica passaram a ser obrigados a usarem estrelas de Davi, símbolo religioso, com a palavra “judeu” escrita, para que fossem mais facilmente identificados.

Os poloneses não sofriam menos que os judeus. Este povo, tratado como inferior por não fazer parte da raça ariana, era visto como submisso, meros escravos do Terceiro Reich alemão. A limpeza de Hitler também incluía aqueles que “davam vergonha” aos alemães, como pessoas com deficiência, especialmente se estas fossem mentais. Recém-nascidos identificados com algum tipo de anomalia eram rapidamente tirados das mães, para que não se apegassem e logo fossem submetidos a técnica usada por médicos alemães para acabar com todos eles: a eutanásia.

Os guetos judaicos passaram a ser mais comuns, especialmente na Polônia. Em 1˚ de maio, em Lodz, era estabelecido o primeiro bairro de judeus, de onde eles não poderiam sair. Eram 160 mil pessoas e a área era pequena demais para tantas pessoas. De acordo com Martin Gilbert, autor do livro “Segunda Guerra Mundial: 2.174 dias que mudaram o mundo”, eram pouco mais de 31 mil apartamentos, a maioria com apenas um cômodo e, desses, apenas 725 tinham água corrente.

 

Qualquer judeu que se aproximasse dos limites do gueto deveria ser abatido imediatamente. Em 3 de outubro, os judeus de Varsóvia também tiveram de se mudar para um gueto. Cento e cinquenta mil pessoas se locomoveram para as áreas que já tinham descendentes judaicos, somando um total de 400 mil pessoas a viverem em um espaço que seria apropriado para 250 mil. Judeus eram proibidos de levarem mobílias e só poderiam carregar o que conseguissem em um carrinho de mão.

 

Na França, dominada pelos alemães, a partir de 27 de setembro, os judeus tiveram de colocar em suas identidades uma marca especial que dissesse qual era sua religião e, ademais, suas lojas tinham de ser marcadas com cartazes escritos “loja judaica”.

Nos campos de concentração a situação dos prisioneiros ficava cada vez mais crítica. Em 23 de setembro, o dirigente da SS, Himmler, criou um decreto para iniciar a operação Dente, que dava ordens para que “todos os dentes e próteses dentárias de ouro fossem retirados dos internados nos campos”. Tudo que fosse recolhido deveria ser enviado para o Banco Central do império alemão.